Fé Primitiva

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Fé Primitiva


O que é fé? ‘Fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem’ (Hebreus 11,1). O apóstolo São Paulo destaca que foi por meio da fé que os antigos receberam bom testemunho. Além de procurar viver a própria vida de Cristo, foi necessário o desprendimento para exercer uma fé original, capaz de enfrentar as terríveis adversidades, tanto nas arenas, como no próprio evangelismo pessoal.

Quais as características de uma fé primitiva? O que dela aprendemos? ‘Apagaram o poder do fogo e escaparam ao fio da espada; da fraqueza tiraram força, tornaram-se poderosos na batalha e puseram em fuga exércitos estrangeiros’ (Hebreus 11, 34).

O que é primitivo: que dura desde os primeiros tempos. Assim, agindo pela fé primitiva, vivendo sob esta fonte inesgotável, nos tornamos como nossos pais. Humanamente falado, é impossível praticar as mesmas ações que Cristo praticou e exercer os mesmos comportamentos que nossos pais expuseram no tempo da Igreja Primitiva. Mas, contra o impossível temos o poder do exemplo, dos posicionamentos pessoais que uma vez foram expostos: a fé apostólica! Homens que assumiram a fé em Cristo ao ponto de recusarem adorar outros deuses. Renunciaram suas profissões, venderam suas propriedades e depositavam aos pés dos apóstolos, já que reputavam seus conhecimentos como excrementos, cuidavam uns dos outros e se comprometiam com despesas futuras dos mesmos; viajavam dias na semeadura das Boas Novas. Mudaram seus pareceres em prol de uma vida verdadeiramente transformadas e apresentando-as como cartas escritas e lidas por todos. Ao ponto de suas próprias sombras requererem temor das pessoas.

Claro, as consequências eram inevitáveis, resultaram muitas vezes em demasiadas perseguições e prisões e até mesmo a própria vida; como o conhecimento da inspiradora vida-testemunho de Estevão. Tão inspiradora que ao presenciar a cena do martírio de Estevão, um que exerceu tamanha fé e falecendo com os olhos mirados aos céus, e Saulo ao ser passado por um resplendor do céu, torna-se o primeiro mensageiro das eras: de um Saulo perseguidor a um São Paulo perseguido.

Uma fé vivida em plenitude, uma fé expressada em ação e testemunho. Muitos dos que expuseram esta fé os conhecemos como mártires, apóstolos e heróis da fé. Ao passo que muitos outros, conhecemos de forma anônima, embora, sempre de maneira proclamada. É a prova das coisas que a gente não vê. É crer como o que ainda não é e, viver como se já fosse, como diz o profeta da última era, como Apocalipse 10,7.

Carlos Finney1 (1792-75) abdicou sua carreira de advogado para viver o evangelho em forma de pregador. Finney ficou conhecido como o apóstolo do avivamento. Vivendo em espírito de oração. Era bem comum que nos avivamentos os novos convertidos se encontrarem tomados pelo desejo de orar noites inteiras, até lhes faltarem as forças físicas. Na história de Finney, o Espírito Santo constrangia grandemente o coração dos crentes que sentiam a recorrente responsabilidade pela salvação das almas mortais. Quando as nuvens da perseguição ficavam escuras, Finney, como era seu costume diante destas situações sentia-se dirigido a dissipá-las, orando. Em vez de falar em público ou mesmo em particular acerca de acusações, orava.

Dedicava-se a buscar o poder do Espírito Santo sem desprezar a arma da instrução, alcançando vastos resultados. Finney semeara as sementes de avivamento e as regava com lágrimas, e todas as vezes que recebia o fogo das mãos de Deus, era com sofrimento: muito sofrer por muito colher. ‘…Eu tremia da cabeça aos pés, sob o pleno conhecimento da presença de Deus.’ Em um culto onde pregara, relata: ‘…O Senhor abriu as janelas dos céus, derramou o espírito de oração e entreguei-me de toda a alma a orar.’

Martinho Lutero; o grande reformador, Jônatas Edwards; o grande avivalista, João Wesley; a tocha tirada do fogo e Dwight Lyman Moody; o célebre ganhador de almas. Viveram a partir da fé primitiva. O que foi visto, as observações da vida prática do Senhor Jesus Cristo, Estevão, Pedro, Paulo, Tiago e os apóstolos foram combustíveis para a oferta de exemplos e referências aos filhos de hoje. Homens, ora anônimos, ora heróis, muitas vezes apóstolos e muito ainda mais mártires que foram protagonistas para nos fazerem enxergar a necessidade da fé primitiva, a fé dos pais primitivos.

Nas palavras do profeta irmão Branham: ‘Bem, aqueles cristãos primitivos eram robustos. Eles não se importavam com quem lhes dessas tapinhas nas costas. Eles refletiam a Jesus Cristo, de tal modo que eram considerados… Eles eram indoutos e homens sem letras. Eles não iam à escola secundária, e não tinham diploma universitário. “Mas percebiam que eles haviam estado com Jesus.” É disso que eles necessitam, os cristãos hoje, perceber que você esteve com Jesus. Há algo a seu respeito que é diferente. Eu sei que não é… Essa é uma coisa impopular para se dizer, mas nós não estamos buscando popularidade. Os cristãos não estão buscando algo fácil’. Mensagem: A Obra-Prima de Deus Identificada, página 120.

Temos como exemplo dessa Fé, totalmente baseada em Cristo, muitos irmãos que foram ao martírio, como Policarpo, que se refugiou numa pequena propriedade não longe da cidade. Dia e noite não fazia senão orar por todos, como de costume. Três dias antes de o prenderem, ele teve um sonho que representou sua morte, afirmado que deveria ser queimado vivo. Ao ser preso, não fugiu de seu algoz, pelo contrário, ofereceu aos guardas alimento e solicitou um tempo para oração, por no mínimo duas horas. A caminho de sua prisão, ao pé do ouvido, Policarpo escuta as persuasivas palavras dos chefes da guarda: ‘Que mal há em dizer que César é o Senhor, oferecer sacrifícios e fazer tudo o mais para salvar-se?’ Policarpo não se deixa levar, e refuta tal possibilidade. Não se desanimou, e diante de uma multidão que presenciava sua sentença, ouve uma voz do céu: ‘Sê forte, Policarpo! Sê homem!’.

Policarpo muda seu semblante. Novamente ouve as palavras de ordem: ‘Jura e eu te liberto. Amaldiçoa a Cristo!’ O verdadeiro cristão ali, responde com toda ousadia que lhe era apraz: ‘Eu O sirvo a oitenta e seis anos, e Ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?’ Diante de incontáveis desconfortos e provocações descabidas, reforça Policarpo: ‘Tu me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado para os ímpios. Mas por que tardar? Vai e fazes o que queres.’

Viam no rosto de Policarpo uma graça completa, se sentiu digno de completar sua história de cristão na terra com toda prontidão. No estádio, onde era provocado a todo instante até mesmo pelo público, que reivindicavam as aberturas das jaulas para alimento de feras. Não era mais tempo de ser morto por feras. Havia um sonho a ser cumprido! Então, unânimes ecoavam as vozes, solicitando que Policarpo fosse queimado vivo, recolhendo lenhas e atirando próximo ao mártir.

Diante da fogueira pronta, Policarpo se despe e aproxima da pira com as palavras certeiras em seus lábios: ‘Aquele que me concede força para suportar o fogo, dar-me-á força para permanecer imóvel na fogueira…’. Pela história é possível ler que o fogo não eliminara completamente Policarpo. Diante de uma irrepreensível oração ao ser entregue à fúria dos povos, foi brutalmente apunhalado em seu corpo, falecendo ali. Policarpo foi o décimo segundo a sofrer martírio em Esmirna, sendo seu sofrimento, de acordo com o evangelho de Cristo, digno exemplo.

Renomados escritos dizem que Perpétua e Felicidade2, também exemplos dessa tão valiosa Fé, foram martirizadas por decapitação no anfiteatro de Catargo no ano 203 no império de Septímo Severo, entre 193 a 211. Naquele tempo o império romano era como uma fortaleza em toda região do Mediterrâneo. Ser cristão neste tempo de fé e de sangue era um verdadeiro risco perene de vida. Perpétua, uma jovem mãe de 22 anos, escreveu na prisão um diário que contaria suas histórias, a pedido dos próprios irmãos. Felicidade era uma serva e se encontrava gestante quando foi aprisionada, dando luz no próprio calabouço para se unir aos outros mártires. Perpétua estava cultuando em sua casa quando foi surpreendida pela guarda imperial. Sendo importunada pelos guardas, inquirida nos momentos do parto, Felicidade prontamente responde: ‘agora sou eu que estou sofrendo, mas no martírio será Cristo que sofrerá por mim.’

Perpétua, senhora da nobreza e Felicidade, sua empregada, eram cristãs. Ambas foram condenadas juntamente com outros cristãos por desobedecerem ao edito imperial de adorar e oferecer sacrifícios aos deuses romanos, além do próprio imperador. Em vão os pais de Perpétua recorrentemente procuravam convencê-la a desistir da fé e sacrificar aos deuses: ‘O que será do seu filho?’

No dia 7 de março daquele ano foi conhecido o veredicto: ‘Perpétua, Felicidade… São condenadas às bestas no Anfiteatro de Cartago.’ Perpétua diante de tamanhas súplicas, mesmo do juiz, para que deixasse sua fé e aceitasse a religião pagã, com propriedade afirma que estava resolvida a ser fiel a fé de Cristo Jesus até a morte. Entraram na arena com parcas roupas, porém, com um enorme brilho e uma destacada alegria de espírito inexplicável, humanamente falando. Todos possuíam o conhecimento de que seu martírio seria um público testemunho imponente para o avanço da fé cristã. Felicidade dizia que sua morte era o mesmo que um segundo batismo, e não um martírio: ‘Todos estavam animados, alegremente dispostos a entregar a vida para proclamar a sua fé em Jesus Cristo.’

Sendo as últimas a entrarem na arena se vendo a frente de uma vaca bravíssima que as chifrava sem misericórdia, o animal investira primeiramente em Perpétua, posteriormente, se direcionando à Felicidade. Retomando suas forças, Perpétua corre para ajudar Felicidade, sendo naquela visível seu molhado corpo pelo primeiro alimento natural ao ser humano, o leite materno.

Perpétua unicamente se preocupava em manter as vestimentas arrumadas para não oferecer escândalo por parecer pouco coberta. Aqueles que tudo assistiam com bom grado, como que extasiados, exigiram mais, conclamando uma morte pública. As cristãs foram observadas na arena em um deplorável estado de feridas abertas e dilacerantes para serem mortas pelos gladiadores. As duas valentes jovens se abraçaram e voltaram para a praça. Perpétua gritou de dor, ao ser ferida com o primeiro golpe intencional de cortar seu pescoço, onde o gladiador errou. Ainda restando finais forças, indica em seu corpo o local exato para o desfecho daquele martírio. De acordo com Tertuliano3, o sangue de Perpétua e Felicidade, dos irmãos em Cristo é a semente da igreja no norte da África.

‘Eles, pois, venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.’

Uma força, uma condição ímpar proveniente exclusivamente da fé. Inteiramente exercida por propósito sobrenatural e capaz de enfrentar adversidades descomunais na história da humanidade, na biografia da igreja. Nas palavras do profeta: “Sê fiel até a morte”. Ele não disse sê fiel até que se aproxime a morte, mas até a morte.

Você talvez tenha de selar seu testemunho com seu sangue. Milhares, até milhões, têm morrido durante todas estas dispensações. Eles morreram na fé. Como Antipas, o mártir fiel, eles não tiveram suas vidas por preciosas até a morte. Frequentemente pensamos que seria quase impossível ser um mártir. Ousem, porém, recordar que a fé que diariamente exercitamos para triunfar em Cristo Jesus é a mesma fé que sustentou Policarpo e todos os mártires. A fé suprema dará a graça suprema para a hora suprema. Bendito seja Deus para todo o sempre!” Mensagem: As Sete Eras da Igreja – A Era da Igreja de Esmirna, página 72

A História do Povo de Deus – Grupo 10: A Igreja Primitiva

Notas

1 Livro: Heróis da Fé, Orlando Boyer, 2002.

2 Livro: Paixões de Perpétua e Felicidade.

3 Um prolífico autor das primeiras fases do Cristianismo, nascido em Catargo na província romana da África. Foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária em latim.